O Velho

Caminhando...

segunda-feira, janeiro 29, 2007

FAZEDORA DE CAIXINHAS


Eis o texto daquela que decifrou o enigma do Véio: A Arlequinal Marcela. A imagem que ela escolheu é o logo de seu blog http://arlequinal.zip.net/, ilustrado por Sidnei Akiyoshi. Valeu, Marcela, e desculpe pela demora... ;-)

"Eu sei fazer caixinhas. Nelas, escondo toda sorte de matérias. São miçangas, fitas, pedrinhas coloridas, agulhas e alfinetes, moedas sem valor, fotos e cartas, peças de antigos jogos de tabuleiro. Minhas caixinhas não são como a de Pandora. Não contêm quaisquer males. São inofensivas e, talvez, inúteis. Minto. Há dias em que algumas pulsam rancorosas; e sinto medo. Traço nova caixa, esperando que desta vez permanecerá vazia, na compreensão exata das distâncias que nos cercam. Mas se toda grande distância não é de todo lacuna, poderia permanecer desabitado o novo espaço? Percebo minhas mãos a despregar botões de velhas camisas, amando-os como se fossem o corpo que um dia as vestiu. Não culpo estas minhas mãos. Buscam, apenas. Não um objeto, mas um halo de santidade. Algo como uma idéia. Um motivo. Qualquer sentido que as faça quedar em oração. E movem-se. Dezoito pequenas peças circulares abrigadas na caixa lilás. Lilás. Lilases são as flores nela desenhadas – o fundo em que repousam se faz entre azul e cinza, sem que possa ser dito cor de chumbo. A leveza desta combinação de cores será para sempre associada ao que na caixa está contido. Precisarei de envelopes perfumados nesta tarde. Não conheço destinatário que os mereça; serão meus e ocuparão a caixa azul. São olhos. Pálidos. Aproximam-se de mim; sou agora o mirante. Tudo lhes pertence – toda terra, toda água e toda gente, até onde a vista alcança. Tudo. Todo o amor e toda a fúria. Poucos sentires para seu anseio em descobrir novos ares e aromas. Não. Nenhum endereço será inscrito em meus envelopes. Tremo por desconhecidas terras que jamais tomarão conhecimento de suas cores. Mas vejo grande a caixa azul. É um pouco céu. Um tanto mar. Em muito de sua altura, letra. Não poupo esmero e afeição no fabrico dessas caixas, mesmo quando ensaiam qualquer gesto de piedade."

terça-feira, janeiro 09, 2007

Mito meu

O que escrevo agora é para apenas uma pessoa poder entender.

Falo de mim. No começo, achava que podia de tudo. Tudo era superável, pela persistência. Não deveria me ocupar com pequenas coisas. Isso me fez preguiçoso e irresponsável. Sabia muito bem o que era focar, até perceber que persistência era algo muito além disso... Cada lamentação, choro, grito é um gol contra pra ela. Todos temos nossos momentos assim, mas reclamar é sempre marcha a ré. Quando reclamo é porque minhas forças não eram tantas, afinal. E isso era um golpe. Foi quando percebi que persistir não era ter essa força, mas adquiri-la, seja da forma que for, sempre acreditando no que queria alcançar.

Estou aprendendo muito, errando muito, mas saber não é o suficiente. Não tem tanto médico que fuma, por ai, aconselhando seus pacientes a parar de fumar? Pois então!
Muitas vezes meu caminho não é errado, apenas os passos não são suficientes. Quem sabe mais alguns? Mas o final da história não está claro, já que nem sei quem é a personagem principal dela. Na verdade, acho que ela sempre muda e, até, existe mais de uma ao mesmo tempo. Consequentemente, não há fim. Apenas um fim-repouso, como o começo, pois tudo está no todo.

Tudo está no todo.

Assim como os planetas giram em torno do sol, os elétrons giram em torno do átomo. Sim, giram! A física quântica deve estar equivocada, mas vai se encontrar.
Sou místico por natureza, mas sempre fugi disso. Uma vez uma bruxa amiga minha leu minha mão e reparou que tinha um tal de "anel de salomão", que é um semi-círculo meio torto envolvendo os dedos médio e anelar. Simboliza que eu sou descendente de poderosos magos. Isso explica porque tenho tantos amigos bruxos, magos, médiuns... Mas, o mais gozado, é que nunca fui iniciado em nada, e nunca ninguém me convidou para sê-lo. Alias, fui iniciado apenas como Lowton, aos 12 anos.

Sim, tudo está no todo. Voltando ao assunto anterior, assim como a música começa e termina em repouso, o dia também, dá pra chegar a essa conclusão quanto a nossa história, não é? Hoje aprendi o quão são importantes essas pequenas coisas. Não diga que é tarde para usar isso a meu favor, pois tarde, mesmo, é para voltar atrás. Não volto. Meus passos não seguem duas direções opostas, apenas as bifurcações que aparecerem. Muitas atividades ao mesmo tempo, mas sou teimoso. Não tem jeito. É por isso que não abandono nenhuma delas, apenas as multiplico, tentando ver se me perco.

Enfim, o que faço é apenas esquecer as que não sigo, visto que nunca chego à tão esperada parede intrasponível. Um dia sempre lembro delas. Como hoje.

Imagino uma lágrima escorrendo no meu rosto quanto também imagino que alguém leu essa postagem até aqui, apesar de eu ter dito no primeiro parágrafo que apenas um entenderia. Obrigado.
Na verdade, um pouco dá pra entender sim.

Mas minha angústia em lembrar de caminhos não terminados não tem explicação, apenas lamentação.

É que hoje arrumei meu quartinho de trabalho, bagunça, ensaio, computador, livros...