O Lótus - Capítulo III
A Raiz dos Espíritos
- Mestre! - sussurrou Naró.
Após acordar, se viu amarrado pelos pulsos ao lado de Atisuanã que, por sua vez, também estava, só que pelo tornozelo esquerdo. Não havia sinal de Quityambó. Apenas um jovem fazia a guarda dos dois, mas estava dormindo encostado na mesma árvore que os suspendia.
- Mestre! Está acordado?
O velho curandeiro continuava inconsciente. Naró suspirou e olhou para o céu. Estava escuro, apesar de ainda ser cedo. Nuvens negras ocultavam o sol.
Lembrou-se de uma cena semelhante, acontecida pouco antes do primeiro caso de morte silenciosa. Havia saído para a floresta, atrás de um agrado para o mestre. Como sabia que ele gostava de chás amargos, aproveitou para procurar algumas folhas com essas características. Juntou três tipos e mascou-as para experimentar o sabor, mas engasgou e acabou por cuspí-las. Se havia algo que Naró não entendia no Mestre, era esse gosto estranho.
Acendeu uma fogueira e passou a cozinhar as três folhas com pedras retiradas do fogo. Lançava-as para dentro da cuia onde estavam as folhas. De repente, uma sombra pairou no céu. Eram as nuvens, rapidamente roubando toda luz ao redor. Não chegou a chover, apenas ventou muito. Uma cena rara.
À noite, trouxe o chá para o Mestre, que experimentou satisfeito.
- Minha gratidão, filho. Fez uma boa escolha. A folha de socó faz bom matrimônio entre as duas outras.
- Matrimônio?
- Sim. Dois opostos não permanecem juntos. É preciso um terceiro elemento. A criação parte do três. Dois opostos e um neutro. É assim, sempre foi. Há grande riqueza nesse ensino. - Disse, com seu sorriso tipicamente sereno.
O discipulado de Naró era empírico. A ciência interior. Atisuanã guiava sem que, muitas vezes, o aluno soubesse. O ensinou que toda a natureza exibia a verdade absoluta de todas as coisas. Bastava silenciar, enxergar e ouvir para entender. Tudo estava em todas as partes. No grande residia o pequeno. No pequeno, alí encontraria o grande. Um grão de areia concentrava todo o conhecimento do universo.
E, nesse empirismo, buscava sintetizar a idéia do céu novamente obscurecido, pendurado ao lado do mestre. Alguma nova lição havia de ser aprendida. Depois de muito esforço, acaba adormecendo.
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Os raios de sol do novo dia atingem o rosto de Naró, fazendo-o despertar de seu sono tranquilo na floresta. Como pode ter dormido tanto, a ponto de só acordar depois do sol? Tentou se levantar. Uma dormência nas pernas o fez cair de lado.
- Que olor é esse? - Pensou.
Era um perfume familiar. Levou alguns instantes para se lembrar da flor de Lótus guardada em seu Jamanxim. Rapidamente, arrancou-a de dentro e lançou-a à distância.
- Porque é que as plantas de cura sempre me pregam essas brincadeiras?
Lembrou-se da folha amarga desconhecida usada erroneamente na ferida da mão esquerda. Por sinal, já não estava tão inchada como no dia anterior. Uma leve dor de cabeça na parte frontal da testa, acima dos olhos, incomova um pouco. Estava difícil se erguer.
- Coragem! - clamou para si mesmo.
Sentiu uma onda de energia percorrer-lhe a espinha. Ficou de pé em dois tempos. Decidido a buscar orientação superior, começou a preparar o ritual do chá da raiz dos espíritos. Para isso era necessário acender uma fogueira, o que fez com facilidade.
Fecha os olhos, com as pernas cruzadas, a garrafa de chá entre elas. Inicia o canto para chamar os espíritos protetores da mata. Finda essa etapa, bebe parte do líquido sagrado e mantém sua atenção no crepitar do fogo. Olhos fechados, atenção firme, determinação também. Para se encontrar com os grandes seres, necessitava se manter sério e flexível, disciplinado e amoroso.
Pouco depois de sentir um formigamento pelo corpo todo, vê-se fora dele. Como já estava acostumado a fazer quando viajando no plano astral, dirige-se ao fogo para eliminar qualquer impureza agregada e agradecer a Tupã.
- Filho...
A voz de Atisuanã era reconfortante. Normalmente, andava com um cajado para apoiar na caminhada que a idade já tornara difícil. No entanto, estava bem ereto e saudável, sem nenhum suporte além das próprias pernas. Mas seu sorriso terno havia dado lugar a um semblante um pouco mais rígido.
- Grande Mestre! O Lótus! Eu o encontrei, é magnífico! Mas seus efeitos não foram como esperado... O que fiz de errado?
- O Lótus principal já foi encontrado, meu filho. A importância das coisas não reside nas coisas, e sim numa infinita combinação de vontades. A borboleta não é nada sem a flor, mas a borboleta não é a flor.
- Mestre! O que preciso aprender?
- Volte para a tribo. Não devia tê-la deixado. É preciso aprender os segredos da raiz dos espíritos.
- Mas quem irá me ensinar?
- Ainda não aprendeu a aprender com a grande mãe, não é? Olhe à sua volta. Ela o envolve em seu abraço. Vou ensiná-lo a curar, mas ainda há lacunas em seu aprendizado. Graças a Tupã, temos a raiz dos espíritos. Sem ela, todo a ancestralidade estaria perdida. Use o que ainda tem com sabedoria. Mantenha a esperança. A cada novo encontro, ensinarei uma palavra de poder, para ser usada nas horas de necessidade. A primeira, você já usou hoje. A cada novo uso, uma virtude crescerá mais forte em você.
- Que palavra é essa, mestre? Não me recordo.
- Recorda sim. Apenas é ansioso. Mas essa é outra lição. Por agora, apenas ouça a grande mãe que cuida de ti. Ela é a manifestação do amor de Tupã.
Então, o mestre desaparece no ar. Naró entendia a necessidade de voltar. Precisava aprender a fazer o chá, mas apenas Atisuanã poderia lhe ensinar. Com o tempo, aprenderia a se consultar sem a necessidade da raiz dos espíritos, mas esse tempo ainda não havia chegado. Era preciso poupar o líquido da garrafa para esse momento, e não havia margem para erro. Começou a sentir a necessidade de voltar ao corpo. Então, um brilho, pela terceira vez, o chama a atenção na mata. A mesma bela mulher, agachada, regava algumas pequenas flores com suas lágrimas e as acariciava com seus cabelos. Cantava-lhes uma doce canção, enquanto elas pareciam procurar por sua voz reconfortante. A presença de um amor ancestral era evidente e um único refrão, sem pressa, era repetido:
" E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei a te amar"
Ainda cantando, levantou a cabeça e olhou na direção de Naró. Seu sorriso parecia mais intenso agora, como o de uma mãe feliz por ver seu filho descobrindo o mundo. Reparou mais uma vez nas flores e uma delas lhe chamou a atenção. Pequenina, quatro pétalas e miolo dourado. Sim, Naró compreendia agora. Ele havia sido aquela flor!
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A noite já ameaçava obscurecer a terra. A lua estava iniciando sua forma invisível, quando não iluminava mais o céu, restando apenas as estrelas para mostrar os caminhos. Os poucos raios de sol ainda permitiram que Naró fizesse mais um esforço para se soltar da árvore-cativeiro. Sua preocupação era com o balançar do galho. Temia que o mestre caísse com a cabeça no chão. Depois de muito cuidadoso esforço, o discípulo de Atisuanã consegue se libertar, caindo de uma altura de duas vezes sua altura. Um corte profundo na mão esquerda havia sido feito pelo cipó que o aprisionara.
Olhou para o Mestre. Não conseguiu perceber se ele estava respirando. Além disso, estava muito alto para arriscar cair de cabeça no chão. Olhou para o rapaz que montava guarda. Ainda dormia. Decidiu então fugir. Precisava de tempo para refletir sobre tudo o que acontecera. Correu na direção da mata e, conforme seguiu, começou a ouvir um barulho curioso, que só se fazia aumentar. Após contornar uma grande pedra, parou horrorizado com a visão que teve: Corpos amontoados, urubus, moscas, uma cena degradante. Sem conseguir tirar os olhos, apesar do nojo que sentia, Naró foge, de costas e encarando aquela cena horrível, em direção à mata. Não havia dado muitos passos, quando tropeçou num cesto que estava no chão. Então, vira-se e corre, apavorado, desaparecendo no interior misterioso da floresta sem fim.
(continua, toda quarta-feira, as 11h da manhã)



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