O Velho

Transmutando...

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

O Lótus - Capítulo III

A Raiz dos Espíritos

 

- Mestre! - sussurrou Naró.

 

Após acordar, se viu amarrado pelos pulsos ao lado de Atisuanã que, por sua vez, também estava, só que pelo tornozelo esquerdo. Não havia sinal de Quityambó. Apenas um jovem fazia a guarda dos dois, mas estava dormindo encostado na mesma árvore que os suspendia.

 

- Mestre! Está acordado?

 

O velho curandeiro continuava inconsciente. Naró suspirou e olhou para o céu. Estava escuro, apesar de ainda ser cedo. Nuvens negras ocultavam o sol.

 

Lembrou-se de uma cena semelhante, acontecida pouco antes do primeiro caso de morte silenciosa. Havia saído para a floresta, atrás de um agrado para o mestre. Como sabia que ele gostava de chás amargos, aproveitou para procurar algumas folhas com essas características. Juntou três tipos e mascou-as para experimentar o sabor, mas engasgou e acabou por cuspí-las. Se havia algo que Naró não entendia no Mestre, era esse gosto estranho.

 

Acendeu uma fogueira e passou a cozinhar as três folhas com pedras retiradas do fogo. Lançava-as para dentro da cuia onde estavam as folhas. De repente, uma sombra pairou no céu. Eram as nuvens, rapidamente roubando toda luz ao redor. Não chegou a chover, apenas ventou muito. Uma cena rara.

 

À noite, trouxe o chá para o Mestre, que experimentou satisfeito.

 

- Minha gratidão, filho. Fez uma boa escolha. A folha de socó faz bom matrimônio entre as duas outras.

- Matrimônio?

- Sim. Dois opostos não permanecem juntos. É preciso um terceiro elemento.  A criação parte do três. Dois opostos e um neutro. É assim, sempre foi. Há grande riqueza nesse ensino. - Disse, com seu sorriso tipicamente sereno.

 

O discipulado de Naró era empírico. A ciência interior. Atisuanã guiava sem que, muitas vezes, o aluno soubesse. O ensinou que toda a natureza exibia a verdade absoluta de todas as coisas. Bastava silenciar, enxergar e ouvir para entender. Tudo estava em todas as partes. No grande residia o pequeno. No pequeno, alí encontraria o grande. Um grão de areia concentrava todo o conhecimento do universo.

 

E, nesse empirismo, buscava sintetizar a idéia do céu novamente obscurecido, pendurado ao lado do mestre. Alguma nova lição havia de ser aprendida.  Depois de muito esforço, acaba adormecendo.

 

______________

 

Os raios de sol do novo dia atingem o rosto de Naró, fazendo-o despertar de seu sono tranquilo na floresta. Como pode ter dormido tanto, a ponto de só acordar depois do sol? Tentou se levantar. Uma dormência nas pernas o fez cair de lado.

 

- Que olor é esse? - Pensou.

 

Era um perfume familiar. Levou alguns instantes para se lembrar da flor de Lótus guardada em seu Jamanxim. Rapidamente, arrancou-a de dentro e lançou-a à distância.

 

- Porque é que as plantas de cura sempre me pregam essas brincadeiras?

 

Lembrou-se da folha amarga desconhecida usada erroneamente na ferida da mão esquerda. Por sinal, já não estava tão inchada como no dia anterior. Uma leve dor de cabeça na parte frontal da testa, acima dos olhos, incomova um pouco. Estava difícil se erguer.

 

- Coragem! - clamou para si mesmo.

 

Sentiu uma onda de energia percorrer-lhe a espinha. Ficou de pé em dois tempos. Decidido a buscar orientação superior, começou a preparar o ritual do chá da raiz dos espíritos. Para isso era necessário acender uma fogueira, o que fez com facilidade.

 

Fecha os olhos, com as pernas cruzadas, a garrafa de chá entre elas. Inicia o canto para chamar os espíritos protetores da mata.  Finda essa etapa, bebe parte do líquido sagrado e mantém sua atenção no crepitar do fogo. Olhos fechados, atenção firme, determinação também. Para se encontrar com os grandes seres, necessitava se manter sério e flexível, disciplinado e amoroso.

 

Pouco depois de sentir um formigamento pelo corpo todo, vê-se fora dele. Como já estava acostumado a fazer quando viajando no plano astral, dirige-se ao fogo para eliminar qualquer impureza agregada e agradecer a Tupã.

 

- Filho...

 

A voz de Atisuanã era reconfortante. Normalmente, andava com um cajado para apoiar na caminhada que a idade já tornara difícil. No entanto, estava bem ereto e saudável, sem nenhum suporte além das próprias pernas. Mas seu sorriso terno havia dado lugar a um semblante um pouco mais rígido.

 

- Grande Mestre! O Lótus! Eu o encontrei, é magnífico! Mas seus efeitos não foram como esperado... O que fiz de errado?

- O Lótus principal já foi encontrado, meu filho. A importância das coisas não reside nas coisas, e sim numa infinita combinação de vontades. A borboleta não é nada sem a flor, mas a borboleta não é a flor.

- Mestre! O que preciso aprender?

- Volte para a tribo. Não devia tê-la deixado. É preciso aprender os segredos da raiz dos espíritos.

- Mas quem irá me ensinar?

- Ainda não aprendeu a aprender com a grande mãe, não é? Olhe à sua volta. Ela o envolve em seu abraço. Vou ensiná-lo a curar, mas ainda há lacunas em seu aprendizado. Graças a Tupã, temos a raiz dos espíritos. Sem ela, todo a ancestralidade estaria perdida. Use o que ainda tem com sabedoria. Mantenha a esperança. A cada novo encontro, ensinarei uma palavra de poder, para ser usada nas horas de necessidade. A primeira, você já usou hoje. A cada novo uso, uma virtude crescerá mais forte em você.

- Que palavra é essa, mestre? Não me recordo.

- Recorda sim. Apenas é ansioso. Mas essa é outra lição. Por agora, apenas ouça a grande mãe que cuida de ti. Ela é a manifestação do amor de Tupã.

 

Então, o mestre desaparece no ar. Naró entendia a necessidade de voltar. Precisava aprender a fazer o chá, mas apenas Atisuanã poderia lhe ensinar. Com o tempo, aprenderia a se consultar sem a necessidade da raiz dos espíritos, mas esse tempo ainda não havia chegado. Era preciso poupar o líquido da garrafa para esse momento, e não havia margem para erro. Começou a sentir a necessidade de voltar ao corpo. Então, um brilho, pela terceira vez, o chama a atenção na mata. A mesma bela mulher, agachada, regava algumas pequenas flores com suas lágrimas e as acariciava com seus cabelos. Cantava-lhes uma doce canção, enquanto elas pareciam procurar por sua voz reconfortante. A presença de um amor ancestral era evidente e um único refrão, sem pressa, era repetido:

 

" E a terra era criancinha ainda

Quando eu comecei a te amar"

 

Ainda cantando, levantou a cabeça e olhou na direção de Naró. Seu sorriso parecia mais intenso agora, como o de uma mãe feliz por ver seu filho descobrindo o mundo. Reparou mais uma vez nas flores e uma delas lhe chamou a atenção. Pequenina, quatro pétalas e miolo dourado. Sim, Naró compreendia agora. Ele havia sido aquela flor!

 

______________

 

A noite já ameaçava obscurecer a terra. A lua estava iniciando sua forma invisível, quando não iluminava mais o céu, restando apenas as estrelas para mostrar os caminhos. Os poucos raios de sol ainda permitiram que Naró fizesse mais um esforço para se soltar da árvore-cativeiro. Sua preocupação era com o balançar do galho. Temia que o mestre caísse com a cabeça no chão.  Depois de muito cuidadoso esforço, o discípulo de Atisuanã consegue se libertar, caindo de uma altura de duas vezes sua altura. Um corte profundo na mão esquerda havia sido feito pelo cipó que o aprisionara.

 

Olhou para o Mestre. Não conseguiu perceber se ele estava respirando. Além disso, estava muito alto para arriscar cair de cabeça no chão. Olhou para o rapaz que montava guarda. Ainda dormia. Decidiu então fugir. Precisava de tempo para refletir sobre tudo o que acontecera.  Correu na direção da mata e, conforme seguiu, começou a ouvir um barulho curioso, que só se fazia aumentar. Após contornar uma grande pedra, parou horrorizado com a visão que teve: Corpos amontoados, urubus, moscas, uma cena degradante. Sem conseguir tirar os olhos, apesar do nojo que sentia, Naró foge, de costas e encarando aquela cena horrível, em direção à mata. Não havia dado muitos passos, quando tropeçou num cesto que estava no chão. Então, vira-se e corre, apavorado, desaparecendo no interior misterioso da floresta sem fim.

 

 

 

(continua, toda quarta-feira, as 11h da manhã)

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

O Lótus - Capítulo II

A busca

 

O pânico havia se instalado entre os Tirós. Vários membros, principalmente os anciões, faziam campanha frente à oca de Quityambó. Esses últimos, berrando e batendo as palmas das mãos nas coxas diversas vezes. Atisuanã, sempre calmo, jazia de pé frente à entrada da oca, de olhos fechados e expressão séria. Ao seu lado Naró, desesperado, pedia calma a todos. Estavam mesmo a ponto de invadir o lar do chefe. A grande maioria, com excessão de alguns anciões, nutria grande respeito e admiração por Atisuanã. Era apenas isso que mantinha a estabilidade mínima nessa tarde de caos. Tudo porque muitos haviam morrido, a apenas uma lua do adoecimento do cacique.

 

- Grande Atisuanã - berrou uma das mulheres - meu filho se foi. Como pode chefe Quityambó não nos dar ouvidos?

-  Aí, aí, aí! - Berrou Toró, um dos anciões - O sol negro há de vir novamente! Lembre-se disso, Atisuanã, o sol Negro virá e levará sua alma para Airelan! Não se perca novamente!

 

"Novamente?", pensou Naró. O que ele poderia querer dizer com isso? Nesse momento, Atisuanã abre os olhos. Sem fazer nenhum outro movimento além de um leve sorriso, diz:

 

- Se Airelan for meu destino, que assim seja!

 

Silêncio. Todos ficaram assustados com o que o curandeiro disse. Segundo as crenças dos Tirós, Airelan é a terra do deus do mal onde os sábios que desonram suas responsabilidades são condenados a sofrer duras penas até o reinício dos tempos.

 

- Está louco! - gritou outro ancião, ameaçando investir contra o curandeiro - É ele! Atisuanã é quem trouxe a morte silenciosa! Enlouqueceu! Ele...

 

A cerca de dois passos de alcançá-lo, pára no lugar, arregala os olhos e mantém-se em silêncio. Um ritual um tanto comum naqueles dias. Um ritual de morte. Todos sabiam o que aconteceria a seguir, momentos antes do ancião cair sem vida no chão.

 

- Morte silenciosa! Morte silenciosa!! - Gritavam todos.

 

______________

 

Naró desperta sobresaltado. Está no meio da floresta escura, sem saber se é dia ou noite nem o motivo por estar ali e, por momentos, nem mesmo seu próprio nome. O desespero faz seu coração disparar. Alguns vislumbres de um sonho que teve. Tentando se acalmar, senta-se apoiado em uma grande raiz. Aos poucos vêm à memória imagens do sonho. Uma linda mulher, pele bronzeada, olhos negros profundos e um sorriso sereno como há muito tempo não via, desde que a morte silenciosa ameaçou seu povo.

 

- Porque chamei aquela mulher de mãe?

 

Faz mais um esforço de memória, em vão. Uma agulhada na mão esquerda o lembra do erro do dia anterior. Estava enorme, inchada. Tinha que chegar no riacho logo para lavá-la e tratá-la. Dessa vez, procuraria a planta certa, não arriscaria mais com folhas desconhecidas.

 

Dois caminhos à frente. O primeiro, descendo para um vale onde, provavelmente haveria um rio. O segundo, um pouco mais plano, mas numa direção completamente desconhecida, para o interior cada vez mais obscuro da mata. Visto à distância, mais parecia uma caverna. Pensou um pouco e resolveu descer o rio. Iria precisar de água, afinal. Além disso, não estava muito disposto a enfrentar as criaturas ocultas pela eterna ausência do sol.

 

Começou a descer o vale com cuidado. A luz começava a aparecer, provando que realmente era dia e que a região mais densa das árvores e cipós mais antigos já havia ficado para trás. Nenhum som ou sinal de água, no entanto. Apenas alguns gritinho de macacos curiosos e outros cantos menores ecoavam pela vastidão. O sol já havia começado seu movimento de retirada quando Naró decidiu parar para descansar. Um pequeno brilho piscante ao sabor do vento nas folhas, chamou sua atenção, à certa distância. Pensou em se levantar para ver.

 

- Será que estou sonhando de novo?

 

Talvez fosse um sinal. Talvez o sonho fosse um aviso. Afinal, as semelhanças eram imensas. Ávido, ergueu-se e mal pode conter o contentamento ao encarar o violeta das incontáveis pétalas de cada uma daquelas flores na árvore a sua frente.

 

- Uma árvore de Lótus!

 

Naró não duvidava mais de que era um sinal. As árvores de Lótus haviam desaparecido muito antes que ele nascesse, vivendo apenas nas histórias e lendas de seu povo. A essência de sua flor tinha, segundo essas lendas, faculdades curativas impressionantes. Rapidamente, Naró apanha uma das flores cujos tons degradê de violeta a vermelho o prenderam a atenção, fascinando também pela enorme quantidade de pétalas. Ao contá-las, desiste depois de se perder quatro vezes próximo do número cento e oito. Sente o perfume, inebriante. Precisaria ainda de uma cuia para macetar a flor, mas não via nada que pudesse servir por perto. Resolve guardá-la dentro de seu Jamanxim, uma espécie de mochila feita de cipós, até encontrar o equipamento adequado.

 

- Será esse o resultado de minha busca? Será o Lótus a cura para a morte silenciosa?

 

______________

 

Naró não sabia mais o que fazer. Realmente, Atisuanã havia cometido, aparentemente, muitos pequenos erros. Ou estaria louco, ou possuido. Naquele momento, parecia não se importar com o tumulto que ele mesmo acabou gerando. As pessoas, não compreendendo a passividade do curandeiro, acabavam por se limitar a gritar e lastimar a morte do ancião a alguns passos de distância. Alguns puxaram, temerosos, o corpo sem vida para longe do feiticeiro. Em verdade, o temor quanto aos poderes do Pajé já superava a admiração. Frente ao caos, Naró acaba por tropeçar para o interior da oca. Lá dentro, Quityambó estava sentando, com as costas curvadas e a cabeça apoiada no chão, repetindo aquelas mesmas palavras, dessa vez num tom mais grave e fraco:

 

- Siriam, narena rudia ka lestrina!

 

Era o único que o cacique não espulsava da oca. Por isso, também era responsável por cuidar do lider dos Tirós.

 

- Grande Quityambó! - Questiona Naró, em derradeira esperança - O que posso fazer para ajudar? Será este nosso fim?

 

O cacique se cala. Ergue a cabeça e encara Naró. Olha para o alto, apontando com o dedo indicador, como quem mostra uma estrela distante. Começa então a desenhar um círculo no ar. Pára. Recolhe o braço ainda olhando para cima e, num suspiro, volta a encarar Naró:

 

- Siriam.

 

Naró havia entendido! Dentro de si, a resposta saltava como uma nascente do leito da montanha de pedra. Siriam soava claramente como "lar". Um sentimento de nostalgia indescritível e saudade antiga fez com que o discípulo de Atisuanã ficasse ainda mais confuso, pasmo e reflexivo, apesar dos gritos que não cessavam, vindos de fora.

 

Então, Toró entra abruptamente:

 

- Lá está seu discípulo! Não podemos nos arriscar. Ele pode estar enfeitiçado ou louco também!

 

Naró se levanta, tenta fugir, mas é dominado por muitos homens, amarrado e amordaçado. Apenas seus olhos estão livres para ver Quityambó lutando contra vários deles, em vão,  para permanecer no interior da oca.

 

Rapidamente ambos são arrastados para o exterior, na direção de uma árvore onde Atisuanã está pendurado pelo tornozelo esquerdo, de cabeça para baixo. A vista embaça, o mundo gira e balança com o ímpeto de seus carregadores. Um som oco e um gosto de sangue são as últimas sensações de Naró antes de perder os sentidos.

 

 

 

(continua, toda quarta-feira, as 11h da manhã)

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

O Lótus - Capítulo I

Mistérios da floresta

A floresta era densa, escura. Já cansado da longa viagem, Naró só esperava encontrar uma área mais segura para descansar. Não dava realmente para ver se era noite ou dia e sua juventude denunciava a falta de experiência, apesar da coragem que esse membro da tribo Tiró demonstrava.

 

Seus olhos ardiam. Havia passado uma folha de efeito urticante na ferida de sua mão esquerda e, sem querer, esfregado a mão nos olhos na tentativa de se manter desperto. Agora, além da vista nublada, sua mão esquerda começava a inchar e latejar.

 

Veio à mente as palavras do Pajé.

 

- Não é necessário buscar o que já foi encontrado, filho.

 

Pobre Atisuanã. Para Naró, ficar sentado esperando não era resposta para a morte silenciosa. Esse era o nome da doença que estava matando metade da tribo e havia enlouquecido o cacique Quityambó. Esse grande chefe da aldeia, destemido, vencedor de inúmeras batalhas e que cuidava de todos com mãos paternas e vontade firme, não passava agora de um velho louco e sem memória. Sentado num canto de sua oca, com aquele olhar arrepiante, arregalado, ora balbuciando, ora berrando palavras numa língua que ninguém conhecia.

 

A doença era como uma visão. Quando acometido dela, em poucos minutos a pessoa estava morta. Parava o que estava fazendo, entrando num silêncio repentino e, como se visse algo fascinante, perdia toda a atenção no mundo real. Virava mesmo um morto-vivo. Então, ia parando, sentando... morrendo. Quityambó contava histórias em frente a fogueira, quando foi surpreendido pela morte silenciosa. Contava a história de uma mulher, uma sacerdotiza, Unmuki, que havia recebido o segredo da raiz dos espíritos, a bebida que a tribo usava, feita de um tubérculo encontrado no coração da mata, para falar com os mortos. Havia uma certa tristeza no olhar de Quityambó naquela noite, como nunca se vira antes. Contava a história e desfiava um pedaço de cipó, como  sempre costumava fazer, olhando para o chão. Volta e meia lançava as fibras do cipó ao fogo, que "estralava" ao queimar, com um barulhinho agradável.

 

No momento em que se esticou para apanhar uma das fibras mais próximas do fogo, a morte silenciosa o dominou. A inércia do movimento o fez perder o equilíbrio, e cair de peito sobre a fogueira. Todos os membros da tribo presentes levantaram-se prontamente para resgatar seu chefe.

 

Naquele momento, a doença só havia matado um menino e duas mulheres. Nenhum homem havia sido tomado por ela. Logo a pessoa mais admirada, o chefe respeitado e amado por todos, encontrava-se próximo da morte. Ele levantou-se, mudo, estático. Cheiro de carne assada vindo de seu peito. Sua mulher, Rashi, desesperada, apanhou uma cuia com água e lançou sobre o marido. Burburinho e preocupação. Todos de olhares atentos para seu líder. O que Tupã queria mostrar aos Tirós? O que eles haviam feito? É então que a expressão do cacique muda. Olha ao redor, sem nada responder. Sua mulher, Rashi, cobra ajuda de seus dois filhos, que então erguem o pai e o carregam até a oca.

 

Próximo da entrada, Quityambó, num rompante, urge se libertar da proteção dos filhos. Vira-se e os encara. Seu olhar sempre paternal cede lugar a uma constelação de dúvidas e incertezas. Era quase uma criança assustada, mesmo mantendo a energia do grande chefe.

 

- Pai? - Pergunta Viniás, o mais velho, sem obter resposta.

 

O velho chefe começa, aos poucos, a recuar para o interior, como que acuado. Ichua, o irmão mais novo, aterrorizado, segue o pai, que lança contra ele pequenas cuias, ferramentas e adornos, todos os objetos que encontra a sua frente, para impedir a entrada. E assim foi com qualquer um que tentasse entrar. Quando os objetos acabaram, passou a bravejar:

 

-  Siriam, narena rudia ka lestrina!

 

E não havia quem ousasse penetrar no interior. Não havia quem ousasse desobedecer o grande Quityambó, mesmo em sua loucura. E não por medo.

 

Naró parou para respirar.

 

- O sol deve estar quase se pondo - pensou.

 

Precisava acender uma fogueira. As palavras gritadas do cacique retumbavam em sua mente:

 

- Siriam, narena rudia ka lestrina! Siriam, narena rudia ka lestrina!

 

Não havia mais como esquecer, depois de uma lua inteira ouvindo-as. Era o único discípulo de Atisuanã, e passou a cuidar de Quityambó. O sábio Pajé parecia displicente. E se ele e Naró morressem? Quem ira proteger para as futuras gerações todo o conhecimento ancestral? Conhecimento esse que o pupilo mal havia começado a receber.

 

Tinha chovido há não muito tempo. Fazer uma fogueira seria difícil. Enquanto procurava gravetos secos, recordava um ensino do mestre:

 

- O fogo muda. É a própria natureza da mudança. Nunca é o mesmo, nem fica no mesmo lugar. E nada resta após ele, além das cinzas leves das pesadas madeiras.

 

Quisera ele entender que fogo é esse que assomou sua amada aldeia. Mas a esperança era uma das virtudes de Naró e a situação era propícia para que pedisse orientação de mensageiros superiores. É para isso que carregava um pouco do chá da raiz dos espíritos em uma pequena garrafa. É para isso que tentava acender a fogueira: A viagem seria longa e seu corpo precisava manter-se aquecido. Mas os gravetos e folhas que encontrara não estavam secos o suficiente. Sentou-se sob uma árvore e procurou meditar um pouco. Talvez as respostas viessem num sonho. Tudo o que ele queria era a verdade, a cura da insanidade.

 

Fechou os olhos, mas o sono não vinha. Cigarras, sapos, corujas, cascavéis, insetos e outros sons dominavam o ambiente. Começou a se guiar pelos sapos, concentrando-se em seus coachares. Parecia enxergar as estrelas. Parecia  ver além de seus olhos mortais. Comprovou, assim, que a noite já havia se instalado e, nessa conexão, percebeu que o cansaço havia sumido. Uma luz piscante, como de uma fogueira, vinda do interior da floresta, chamou sua atenção. Seguiu-a. Conforme se aproximava, ouvia cada vez mais alto uma canção, de voz feminina. Linda voz. Suave. Hipnotizante. Ficou um instante a observá-la. Foi quando ela parou, como que se percebesse algo estranho e virou na direção dele. Naró se escondeu. Agachou-se e fechou os olhos. Percebia aquela presença fascinante cada vez mais próxima. Um arrepio lhe subiu a espinha. Quando então abriu os olhos, ela havia sumido. Temeroso, levanta-se e decide retornar ao ponto onde tentou fazer a fogueira. Mal se vira, está defronte dela. Linda, jovem, olhar doce e sereno. Não havia como não se encantar. Mas Tiró não estava apenas encantado. Havia algo de familiar nela. Uma idéia seguida de uma confirmação assustadora lhe veio à mente, fazendo o ar escapar de seus pulmões. Repleto da mais pura surpresa, ainda encontrou ar suficiente para uma única palavra, o manifesto de seu espanto:

 

- Mãe??!

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

... a mente

Transmutar: v.t. e p. Transmudar; alterar; transformar; fazer mudar de lugar; converter*.

 

Transcender a matéria. Transcender a mente. Quando a gente se pergunta: "Quando é que a dor vai cessar?", está, na verdade, perguntando: "Quando é que o sofrimento vai cessar?". Ambos estão intimamente ligados, enquanto a matéria for prioridade. Enquanto não se encortra o "SER".

 

Tudo isso acontece dentro dos domínios da mente humana. Resta ir além, acreditar que realmente há algo além. Abandonar o pensamento medieval de que a terra é quadrada, limitada por abismos em suas extremidades que levam ao vazio, ao caos. O universo é infinito, e não sabemos (ainda) o que é o "infinito". No entanto, temos uma idéia vaga mas suficiente para concluir que a mente não é o estágio final do SER.

 

O que é que está além da mente? As vivências e os mestres concluem que é muita, muita coisa. Uma delas é a

consciência

A mente, sendo material, controla as necessidade materias, que são importantes. A consciência gera confusão na mente, quando coloca, por exemplo, que se deve ajudar o próximo sem esperar recompensa. Para a mente, isso não faz o menor sentido. É por isso que os Yogues buscam o silêncio mental, o vazio. A mente se cala para escutar seu "mestre", a consciência.

 

É para isso que estou transmutando agora. É por isso que estou numa fase de auto-disciplina mental, de auto-conhecimento: Para me harmonizar com a consciência e descobrir, futuramente, o que está além dela. E descobrir também o que é que está além do que está além dela, humildemente aceitando meu estado, sem ser superior a ninguém, mas, igualmente, não o sendo inferior.

 

E como o que está dentro reflete-se no que está fora, essa transmutação será visível de diversas formas. Aqui mesmo. E em todos os lugares.

mago-full

 

* Fonte: minidicionário Silveira Bueno da língua portuguesa

Terça-feira, Agosto 12, 2008

O bom filho...

Olha o Véio de volta! Andei sumido, mas voltei.

Estava viajando, rumo ao interior. Lá conheci muita coisa boa, e algumas outras ruins. Certas horas me dava saudade, mas sabia que tinha de terminar o que comecei.

Os dias têm sido generosos comigo, e o sol um bom companheiro. Só ele mesmo pra saber como me animar. Já as noites, de luas transmutáveis, têm sido o oposto de antes. Continuei buscando os cantos obscuros, as sendas misteriosas, as verdades ocultas, mas só quando a luz da deusa do amor apareceu para iluminar o caminho. Sim, porque "sendas misteriosas" podem, às vezes, ser "labirintos sem saída".

Agora vem o mais importante: O que aprendi nessa viagem. O que precisava aprender. Como em toda viagem ao interior, o ensino foi sobre mim mesmo. Mas não a respeito das estradas, nem das sinalizações e, muito menos, dos encontros. Não, foi mais profundo. Aprendi sobre o coração e a mente, sobre o quanto preciso aprender.

Ainda volto a falar sobre isso. Principalmente, sobre a mente. No momento, ficam as impressões de algo que foi muito positivo, que me manteve temporariamente ausente, que me fez entender um pouco mais o que É. Sobre a verdade. E sobre os segredo que devo fazer dessa verdade.

Estou de volta. E isso, por si, já basta.

;-)

Sexta-feira, Julho 11, 2008

Alquimika


Quarta-feira, Julho 09, 2008

Alquimika - Canto de Julho 2008

Mais um Canto de Julho chegou, como tradicionalmente vem ocorrendo em Osasco, para que a música tenha seu espaço e, principalmente, seu ponto de encontro e de divulgação.

Eu como bom freguês do evento, não ousaria ficar de fora! Ainda mais nesse ano, que as coisas estão começando a acontecer com a Alquimika!

É, portanto, com imenso prazer que convido meus amigos blogueiros para esse show que, com certeza, será um marco e um ponto de referência para os próximos que virão.

Que a música se faça água, para que flua mansamente de encontro ao centro de tudo, puxada pela gravidade do inevitável, pela força que tudo vê e tudo pode, até o infinito da eternidade.

Que o verso torne-se fogo e que suas fagulhas incendeiem os corações sedentos de paz.

Que a luz atinja a terra, carregada pelo ar, a filtrar os tons impróprios da líquida fonte da vida.

E que o Éter seja abençoado sempre. Que o amor flua e acenda a brisa forte da paz.

P.S.: Te vejo lá!

;-)

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Terças-musicais - A L Q U I M I K A


O Espaço Cultural Grande Otelo inicia uma nova jornada, sob nova direção. Agora, toda terça-feira teremos as Terças Musicais. Tenho a honra de anunciar que a banda Alquimika, a qual faço parte, fará a abertura desse evento, nessa próxima terça, dia 10/06.

Com ingressos populares (R$ 2,00), o projeto visa movimentar os grupos musicais de todos os estilos e atrair público, para que a cultura de nossa querida cidade de Osasco cresça cada vez mais.

A banda Alquimika conta com: Eu, Edinho Carvalho, no violão e voz, Fábio Dutra no contrabaixo e voz, Tiago Vilaça na guitarra e voz e Rafael Vicente na bateria.

Vejo vocês por lá!

;-)

Sexta-feira, Maio 30, 2008

Segundas Intenções


Não perca!

Eu estarei lá, tocando, cantando e apresentando esse projeto que tem o dedo na nossa querida Suseli Honório e do Sr. diretor Genivaldo de José!

;-)



Terça-feira, Maio 06, 2008

Primeiro relatório de guerra

 

Estou em combate.

 

A ausência no mundo externo é reflexo da luta interna. Passei por um período desesperador, como a Grécia contra os exércitos de Xerxes, como a França ante o nazismo, como os rebeldes contra o Império, como o Império contra seu déspota imperador.

 

Como ambos os lados, na guerra dos cem anos...

 

E como na guerra dos cem anos, o subjulgado foi inesperadamente banhado por um cachoeira de esperança, quando a mãe de pureza plena, dotada dos mais elevados ideais de beleza e justiça, caminhando sobre o fio de sua própria espada e portando o estandarde divino da paz surgiu doce, jovem e inocente para enfrentar de peito aberto o monstro da incompreensão.

 

Que criatura é essa que reside dentro de nossos semelhantes? Como pode ser tão cruel e incoerente a ponto de ocultar-se dentro de nós e, ainda, fazer com que acusemos nossos irmãos de abrigar a mesma criatura?

 

A batalha recomeçou. Dessa vez, estou focado em um alvo chave de cada vez. Minha estratégia de auto-eliminação durará 21 dias por fase, ao que serei capaz de reportar todos os dados, todas as baixas e a posição exata do novo inimigo.

 

Quando eu derrotar o eu, novos eus surgirão. E sei que a batalha recomeçará. Porém, estarei mais forte, compreenderei melhor o campo de batalha e as técnicas militares a serem usadas. Então sim, direi que não existo mais, pois na verdade nunca existi de fato. Minha verdadeira essência, que poucas vezes foi chamada de "eu", essa sim estará livre e plena, com as asas de luz da verdadeira liberdade a lhe (me) guiar ao encontro do ser divino, do pai maior, dos braços da paz...

 

trismegistus

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Um poema resgatado

 

Que ótimo! Tava arrumando minhas bagunças antigas, os papéis acumulados que por preguiça não separava. Pra jogar fora o que era inútil e guardar algo importate.

 

Imagina o que achei?

 

Uma folha de caderno destacada, com um dos primeiros poemas que escrevi, com certeza há mais de 10 anos! Não coloquei data na folha (não tinha esse hábito ainda).  Até separei as sílabas poéticas, dividindo com barras e númerando cada uma pra praticar. Tentei, na época, fazer os versos com 12 sílabas cada. rsrs. Nem nome artístico eu tinha ainda! Coloquei "Edson" mesmo.

 

Transcrevo-o abaixo, sem as anotações das divisões silábicas, é claro...

 

Chama-se:

 

Inspiração

Ao meu redor vejo tanto conhecimento

Transportando-me para impérios antiquíssimos

Até as novas belezas e os cruéis castigos

Tanta instrução, jaz inútil nesse momento

Pois o que diminuiria o meu tormento

É aquele riacho de cristalinas águas

Onde a peneira vasculha o brilhante pó

Pó este que pelo vão dos dedos escapa

E, com isso, apenas aumenta minhas mágoas

Que se antes já me faziam sentir tão só

Agora, por este poema, dou-lhe um tapa!

Pois a procura está além do último nó

Está muito além do poder da instrução

É igualmente algo importante: a inspiração!

Bonitinho, né?

;-)

Sábado, Março 29, 2008

Paixão de Cristo 2008 !!!

Início

Algo muito importante aconteceu nessa noite. E não foi a encenação da Paixão de Cristo, em Jandira. Foi a reação provocada. Foi a energia de milhares de pessoas, foi um sentimento e uma mensagem de amor.

 

Não foi a história, em si, nem foi a beleza do cenário projetado, ou das músicas do maravilhoso coral ao vivo. Foi o som dos suspiros dos passantes, da respiração presa das crianças, de uma união de buscas pessoais em prol de um bem coletivo.

 

E o que ficou? O que é ser ator? Porque é tão difícil libertar o ego da fantasia de ser "astro", vedete, para alcançar um estado etéreo de luz, de verdade. A personagem principal desse espetáculo não é um grande exemplo disso?

 

Durante minha pesquisa, refleti muito sobre isso, sobre suas razões. Encontrei histórias curiosas sobre ele, esse mestre fantástico. É difícil ter certeza de suas intenções, em determinadas passagens de sua vida. Mas de uma coisa, não tenho dúvida nenhuma: Ele, com sua consciência ampla, sabia das nossas limitações, e da importância de ser paciente. Que nós ainda despertaríamos para a verdade, que é muito simples, apesar de oculta em certos graus. Mas não tenho dúvida que essa verdade está intimamente relacionada com a essência de tudo o que disse. Para o resumo de todas as leis. Para o foco de luz principal que permeia a existência de Deus:

 

O amor.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Poema Patético

 

Drummond

Tenho o orgulho de convidar meus amigos bloguísticos a assistir, em março e abril, o "Poema Patético", espetáculo no qual estarei atuando junto com o grupo Rabo de Kalango, direção de Eliabe Vicente.

Baseado em poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, o espetáculo marca , em 2008, o início das comemorações de 10 anos do Rabo de Kalango, tendo sido encenado anteriormente e conquistado diversos prêmios, como o de melhor encenação no Festival de São José do Rio Preto em 2001.

Venha ver (ou rever) esse que foi e ainda é um marco no teatro de Osasco.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Ana

 (Dedicado à minha luz, Ana, logo após!)

É início da lua cheia, da lua generosa. Lua dos amantes, dos poetas, dos loucos e "lunáticos"...

 

A lua do amor, de um novo começo.

 

Daquela menina preocupada peguei a luz, doce menina aprendiz que me ensinou que o amor é simples. Hoje começamos uma nova etapa em nossas vidas, encerramos o passado amargo para iniciarmos um futuro luminoso.

 

Um fato raro, uma descoberta como essa, merece uma atitude rara. Nunca postei duas vezes seguidas como agora, até porque tenho consciência que a maioria das pessoas só lê a última postagem. Não gosto de deixar nada que escrevo alheio aos olhares "blogueirísticos" de meus amigos e visitantes (portanto, leia a postagem anterior também, até porque tem a ver com essa, além de ser um poeminha que gostei muito de escrever hehe).

 

O primeiro é antes da proposta, o segundo depois. Tudo planejado. Já sabia de antemão da chegada da Lua cheia. É, tá certo, o céu tava nublado, mas não importa. Importa que oficializamos algo que seria inevitável: nossa aliança, nosso namoro. Além disso, temos uma semana inteira pra contemplarmos a lua encantadora, ainda cheia de luz, sempre inspirando os poetas, instigando os amantes, despirocando os pirados e pipocando mitos, lendas e outras verdades...

 

A Lua não se mostrou, até porque não era necessário: A luz de Ana já cegava completamente as estrelas perdidas no céu. Linda Ana, inocente e fascinante, aguardo apenas que o tempo transforme suas preocupações em entrega, suas mágoas passadas em boas risadas presentes, para que se possa ser, um ao outro, por completo.

 

Para toda enternidade. Mesmo temporário, que seja eterno enquanto dure, e que dure eternamente... (Ê Vinícius...)

 

;-)

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Hoje

(Dedicado à minha luz, Ana, antes...)
A dor é maior que o pranto
A fera é maior que a luta
Eu amo, não sabe o quanto,
a flor, o folha e a fruta

Da planta que despedaço
Não resta nem mais raiz
Não resta dizer, se diz,
Se resta fazer, eu faço

Se busco a saída oculta
Se meço, se tento ou traço
Se parte de mim labuta
A outra é nó firme, é laço

A dor é maior que a fera
A luta é maior que o pranto
Erra quem erra e só erra
quem não exerce seu canto

Vive, desvive e revive
quem luta com a fera tanto

Ama, clama e proclama
o justo sem dor nem pranto