O Velho

Caminhando...

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O Lótus - Capítulo XI

Mundos distantes

 

- Um dos líquidos do meu sonho!

 

Haline não tinha dúvidas, estava no caminho certo para decifrar aquelas estranhas imagens que a atormentavam toda noite. Mesmo sem aproximá-lo do nariz, percebe seu cheiro forte e nauseante. Rapidamente, limpa a mão num pano  que deixava no laboratório exatamente para isso.

 

Timidamente, segue na direção dos guardas e vê o feiticeiro sendo aprisionado e levado para a presença do rei. Preferiu esperá-lo sair para pedir nova conferência com o governante quélti.

 

Senta-se no chão, próximo a um canto escuro, no local onde ele foi aprisionado. Começou a se lembrar de sua terra. Sentia saudades de sua mestra.

 

Lembrou-se de quando o rei Topa a havia convidado para viajar para lá. Já tinha se passado três ciclos desde que Selma partira buscando orientação sobre o caso, e nenhuma notícia da mestra havia chegado. Fora isso, notícias vinham sobre invasões nas fronteiras do reino, de um povo poderoso, chamado romani. Eles eram cruéis, vestiam armaduras que cobriam quase o corpo inteiro e reluziam ao sol. Eram extremamente organizados e determinados. Mas os quéltis eram guerreiros valorosos e destemidos, e impunham respeito em todos os adversários vizinhos. Essa era a principal razão de Haline temer essas invasões. Ela sabia que eles jamais recuariam de uma batalha, mesmo não tendo chance alguma. Sentia isso em seu coração. Como os quéltis defendiam sua terra até a morte, as possibilidades não eram animadoras.

 

Certo dia, a comitiva do rei Topa Capac chega em sua vila. Topa era filho do chefe de uma vila quélti distante, que mantinha pouco contato com a vila de Haline. Ele era jovem, um pouco mais velho que ela. Reza a lenda que seu pai, Trismegistus, havia montado um exército poderoso e excurcionado com ele por conquistas em terras distantes. Quando Topa havia completado apenas 13 verões, assumiu o comando do esquadrão de elite. E, mesmo com essa idade, seus homens o adoravam como a um deus. Muitas lendas cercavam o jovem, mas poucos acreditavam nelas de fato. De todas as histórias que cercavam o rei Topa, a mais próxima da verdade era a de como ele se tornou rei.

 

Quando notícias dos romanis surgiram, Trismegistus enviou 13 espiões para ter uma dimensão mais exata do inimigo. Descobriu que era uma força imensamente superior a deles, tanto em número, quanto em tecnologia, experiência, aliados e logística. A sorte é que parecia que os quéltis ainda não eram seu alvo. Mas o bravo chefe sabia que isso não duraria muito tempo. Precisava unir todos os quéltis. Enviou embaixadores para todas as vilas. Algumas, de menor tamanho, juntaram-se ao pai de Topa, mas a grande maioria  se recusou, desdenhando tanto a ameça, quanto o sonho de grandeza do chefe com nome estranho.

 

Não havia outra escolha. Eles precisavam conquistar o máximo possível de povos à força, para se organizarem para uma futura defesa. Para isso, o rei mandou muitos espiões para conhecer tudo a respeito desse império aterrador. Sua cultura, sua organização, seus defeitos, seu tamanho, sua sede por conquístas, seus escravos, sua tecnologia. Tudo. Como eles se localizavam na direção do nascer do sol, as conquístas de Trismegistus foram focadas rumo ao poente. Sempre vitorioso, rapidamente conquistou todos os povos, até o mar. Dentre os conquistados, alguns já possuiam meios de navegar a longas distâncias, inclusive conhecendo povos de mundos completamente inacessíveis a eles, muito além do oceano.

 

Trismegistus se procramou rei. As notícias, no entanto, eram desanimadoras. Os romanis também expandiram seu território e, agora, sabiam da ameaça dos quéltis, graças aos feitos de Trismegistus. Não havia força para a defesa, e os inimigos já os olhavam com preocupação. A única saída encontrada era rumo ao lendário novo mundo que os povos litorâneos já haviam visitado algumas vezes.

 

Graças ao conhecimento de diversos povos, o agora rei Trismegistus ordenou a construção de grandes barcos, como nunca haviam sido feitos, para levar todo seu exército, riquezas e o máximo de trabalhadores especializados que pudesse. E esses novos barcos deveriam ficar prontos rapidamente. Pouco depois de seu filho Topa completar 15 verões, partiram 52 barcos rumo ao desconhecido. Lá, com o conhecimento adquirido por anos de espionagem dos romanis, somado à cultura dos diversos povos conquistados, costruiu uma cidade com um magnífico palácio central. Sem usar da guerra, conquista a simpatia das dóceis tribos locais, que ajudam na construção. Pouco antes da finalização do palácio principal, o rei Trismegistus adoece de maneira estranha. Primeiro, muita febre, e diarréia de odor extremamente desagradável. Depois, vomitos e sangue e um amarelamento da pele. Os habitantes do novo mundo propunham que ele se tratasse com as plantas, através de um curandeiro local, mas o rei se recusava. Não tinha certeza das intenções dos feiticeiros dalí, e preferiu as fórmulas mágicas dos drúidas. Mas as plantas do novo reino não respondiam como as plantas da terra dos quéltis, e o rei acabou falecendo.

 

Seu filho, Topa, assumiu o trono. Quando os nativos sugeriram a presença de um grande feiticeiro, antes da morte de seu pai, ele ficou sabendo de Atisuanã. Quando seu pai morreu e ele assumiu o trono, foi pessoalmente conhecê-lo. Ficou tão admirado com sua sabedoria e pelo respeito que tinha entre todos, de todas as tribos, que o convidou para ser seu conselheiro pessoal. Atisuanã se recusou, mas acabou mantendo contato com o rei, que o visitava frequentemente, desejando ardentemente tornar-se seu discípulo. Topa era perspicaz e prematuro e mostrou ser conhecedor da magia quélti. Mas Atisuanã se recusou a aceitá-lo como discípulo, sem explicar a razão.

 

Depois de muito insistir, Topa desiste e resolve voltar para sua terra. Imaginava trazer algum sacerdote ou sacertotiza para estudar a magia desse povo simples do novo mundo. Foi o que fez. Mas, ao chegar em sua terra natal, não teve a recepção que esperava. Os sacerdotes se recusavam a voltar com ele. Seguiu de vila em vila, até conhecer a vila de Haline. Tão logo a viu, se apaixonou por ela. Sua beleza era incrível. Mesmo não tendo uma idade avançada e uma experiência vasta, ela era um prodígio, exatamente como ele. Já dominava muito bem a magia e sabia falar com as plantas e os animais, sempre obtendo bons conselhos. Topa não tinha dúvidas de que ela deveria ser não só a pessoa a voltar com ele para o novo mundo, como também sua rainha e esposa.

 

O rei passou a corteja-la, falando de todas as suas conquistas, seu conhecimento, seus soldados. Isso, em Haline, causou antipatia. Ela estava cansada de cortejos. Queria a liberdade, sabia que encontraria seu lugar. Queria entender seus sonhos. Sua esperança era sua mestra Selma, que não voltava havia dois ciclos. Topa, então, mudou de estratégia. Para conquistá-la aos poucos, decidiu que era preciso primeiro levá-la ao novo mundo. Então, lhe fez o convite, pedindo desculpas pela insistência anterior. Ela pensou durante alguns dias e acabou aceitando o convite.

 

______________

 

Sentada no chão, Haline se recordava de todos esses fatos e de como desejava voltar para casa. Nisso, sentiu um objeto estranho num canto escuro, próximo à parede. O retira e segue em direção da luz.

 

- O líquido!

 

Sabia que o feiticeiro o havia escondido alí. Deveria ser algo muito importante pra ele, assim como passou a ser importante para ela, quando o relacionou com o líquido de seu sonho.

 

Volta a seu quarto e tenta dormir. Pouco antes de amanhecer, percebe que não teria sossego enquanto não desvendasse esse mistério. E sabia que o rei Topa seria um obstáculo. Ela sabia que ele ainda estava apaixonado por ela e que não aceitaria que mantivesse contato com esse jovem feiticeiro.

 

Rapidamente, veste seu manto, apanha um pilão de madeira e segue para o calabouço. Chama o guarda, fingindo precisar de ajuda. Subestimando-a por ver uma mulher, acredita nela e a socorre, deixando sua lança de lado. Ela desfere o golpe em sua nuca, com o pilão e retira a chave que estava em seu cinto. Não sabia como fugiriam. Só sabia que não conseguiria mais dormir enquanto se mantivesse presa às limitações imposta pelo rei. Apenas pedia à grande mãe que a guiasse para que tomasse as decisões certas, mesmo duvidando que ela a ouvisse nessa terra onde sua magia não parecia funcionar, onde as plantas pareciam reconhecer outros mestres.

 

 

 

continua quarta-feira, 11h da manhã (GMT-3:00  Brasília/Brasil)

4 Comments:

Blogger Bruxinha da Noite said...

Olá amigo!
Como sempre mt envolvente em suas palavas!!!!
Tem selinho pr vc no cantinho, está na coluna da direita.
Uma 5 feira repleta de ternura e emoções!!! Bjos D Luz!!!

00:32  
Blogger Simplesmente *Ana* said...

Bom... você viu a minhas caras e bocas, e os comentários quando eu estava lendo néh?!! rsrsrs
é que realmente me prendia muita á atenção!!!

olha que legal, agora eu sei como o rei Topa, se transformou rei, e que ele é apaixonado por Haline rsrsrssss que "bunitinho"

gostei muito muito Parabéns meu anjo!!!


beijos cheio de amor

Te Amooo!!!

sua Zebrinha!

19:53  
Blogger Codinome Nane said...

Oie !!!

Depois de um tempo sumida.
Cá estou para ver mais capitulos, realmente tá cada dia mais envolvente.
Então até quarta . ehehe

Bjos

20:18  
Blogger Shin_Tau said...

Bom...Velho isto está cada vez mais denso, a trama a ficar mais complicada, mas também amis interessante.

Este capítulo fez-me lembrar a carta de tarot VI Os Amantes, as escolhas, as decisões, e os namoros, claro.

Ah...tive o prazer de conhecer a tua musa, que linda! Deixei lá um comentário e a agora queria fazer um aqui também.
Parabéns aos dois que os vossos caminhos sejam repletos de Luz e Amor. Fico sempre maravilhada quando vejo o Amor a funcionar assim, somos uns felizardos, aqueles que conseguem regar o seu jardim terão sempre sementes de Amor.

Parabéns por tudo!
Um beijo

Shin_Tau

13:00  

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